Luz del Fuego nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, no dia 21 de fevereiro de 1917. Geniosa, não aceitava ordens nem opiniões sobre sua vida. Abominava o uso do sutiã. Desfilava pela praia de Marataízes de calcinha e bustiê improvisado com lenços, quando o biquíni ainda estava longe de constar do vocabulário nacional.

Há 105 anos (1917) nascia a artista, que tinha trânsito livre entre políticos e militares e choca o Rio dos anos 40 e 50 com sua ilha na Baía de Guanabara, onde recebe até Steve McQueen

Dora Vivacqua nasceu em 21 de fevereiro de 1917, era a penúltima filha de uma família de políticos de Cachoeiro do Itapemirim, no interior do estado do Espírito Santo. Dora teve educação esmerada, educada em colégio de freiras. Mas aos 18 anos fugiu de casa para ser artista. Deixou tudo para trás e foi trabalhar no circo. Em 1946 inicia a carreira artística com o nome de Luz Divina, e só no ano seguinte mudaria para Luz Del Fuego – na época nome de um famoso batom argentino. A fama chegou nos anos 50 quando Dora – já conhecida como Luz Del Fuego -, estreou na Praça Tiradentes e começou a dançar quase sempre nua, com seu corpo envolto por cobras. A ideia veio de um livro onde ela leu que as sacerdotisas babilônicas dançavam nuas envolvidas em cobras. Pesquisou e adotou jiboias, que concluiu serem menos perigosas. Possuía duas, Cornélio e Castorina, treinadas durante um mês para as performances de palco. Não levou muito tempo para que se tornasse a sensação do Teatro de Revista, uma das vedetes mais conhecidas do país, apresentando-se inclusive no exterior. Ao ser a primeira atriz no país a aparecer nua em um palco, foi presa e teve que pagar multa na delegacia pelo ato. Ao longo de sua vida foi autuada por causar congestionamentos de carros e expulsa do Theatro Municipal num baile de carnaval após se fantasiar de Noivinha Pistoleira e dar tiros de revólver no teto do teatro. Já com mais de 40 anos era uma obstinada defensora do nudismo. Luz Del Fuego abandonou sua mansão na Avenida Niemeyer e arrendou da Marinha uma ilha na ainda paradisíaca Baía de Guanabara. Mudou-se para lá – junto com seu cachorro Carlos Lacerda. Viveu numa casa de palha, uma oca, erguida por ela e amigos, e construiu aos poucos duas casas. Quando precisava de água e mantimentos, dirigia seu próprio barco até Paquetá. A Ilha do Sol, como foi chamada, transformou-se na primeira colônia para nudistas da América Latina, chegou a ser atração turística na cidade nos anos 50 e recebeu convidados ilustres como o ator Steve McQueen. Dentro da Baía de Guanabara, estava a apenas meia hora da Praça Quinze. Fundou ali o Clube Naturalista Brasileiro, que chegou a ter 40 sócios. Nos anos 50 tentou a política com o Partido Naturalista Brasileiro, abraçando o lema ”mais pão, menos roupa”, sem grande sucesso. Dora escreveu dois livros que foram publicados nos anos 50. “Trágico black-out” (1947) – um romance sobre a vida de uma prostituta que muda ao se apaixonar durante a Segunda Guerra Mundial, e “A verdade nua e crua” (1950), uma autobiografia. Luz Del Fuego morreu, aos 50 anos, em circunstâncias trágicas: foi assassinada junto com seu empregado Edgard, em 19 de julho de 1967, por dois pescadores que, por um tempo, foram funcionários seus trabalhando na construção das instalações em sua ilha. Os irmãos Alfredo e Mozart Teixeira da Silva, o Gaguinho, julgavam a vedete rica. Foram seduzidos pelos poucos valores que tinha na ilha e pelas notícias que saíram na imprensa de que Luz recebera uma herança de família. Tudo investido nas construções na ilha. Condenados a 20 anos cada, Gaguinho morreu assassinado na prisão e Alfredo, que chegou a ser solto, morreu numa emboscada. Seu corpo e de seu empregado foram encontrados a 400 metros da Ilha do Sol, amarrados a pedras e manilhas, submersos na Baía de Guanabara. A morte violenta de Luz assustou o Rio de Janeiro, e o processo policial tomou as páginas dos jornais durante dias. Ela tinha trânsito livre entre políticos e militares: todos temiam as possíveis revelações de seu bombástico diário, que desapareceu. Luz Del Fuego foi sepultada na presença de pouquíssimas pessoas e com apenas uma coroa de flores, enviada pela Sociedade Protetora dos Animais – da qual era membro ativo. Vedetes foram mulheres a frente de seu tempo. Feministas por essência. Mas Luz Del Fuego foi além: em um mundo pós-guerra e moralista, ela desafiou preconceitos, feminista de uma maneira quase intuitiva. Um dos seus feitos está ligado à aviação: ela foi uma das primeiras mulheres do país a receber um brevê para pilotar aviões. A cada ano o seu nascimento também é lembrado. Em sua homenagem, o Dia do Naturismo no Brasil é comemorado em 21 de fevereiro. Vegetariana, defensora da causa animal, feminista, uma mulher dona de seu corpo – numa época em que não se ousava falar nisso -, uma libertária de nascença, sua vida habita o imaginário de gerações de artistas. Rita Lee compôs a música Luz Del Fuego em 1975, regravada por Cássia Eller em 1998, e em 1980 foi lançado o filme “Luz Del Fuego”, de David Neves, com Lucélia Santos no papel principal. Por Frima Santos – Com edição de Gustavo Villela, editor do Acervo O GLOBOhttps://youtu.be/ct12AnDj3Fo