Derrota farroupilha e massacre dos lanceiros negros apressaram o final da guerra. Até hoje, histórias de assombração povoam o imaginário dos moradores.


O que aconteceu na infame madrugada de 14 de novembro de 1844, quando o esquadrão de Lanceiros Negros foi massacrado por tropas imperiais, não se apagou com o tempo.
É como se pairasse uma maldição sobre o Cerro dos Porongos (município de Pinheiro Machado), onde escravos alistados pelos farroupilhas mediante a promessa de liberdade foram exterminados sem chance de defesa. Moradores da região garantem que o lugar é assombrado. Mas eles não sentem medo das aparições que imaginam ver. Pelo contrário, ficam cheios de dó: acham que os supostos fantasmas não querem apavorar ninguém, só denunciar um crime que ficou impune.

Um dos que se empenharam em transformar o Cerro dos Porongos em sítio histórico, o educador Benoni Araújo de Oliveira, 71 anos, de Pinheiro Machado, diz que o lugar foi marcado por uma traição. Sustenta que David Canabarro teria mandado desarmar os lanceiros negros para facilitar a vitória dos imperiais.

– Houve um conluio para encerrar a guerra e apressar o tratado de paz – afirma Benoni, esclarecendo que os escravos haviam se tornado um estorvo.

Defensores de Canabarro negam a vilania. Argumentam que não se pode tirar os méritos do coronel imperial Francisco Pedro de Abreu, o intrépido Chico Pedro, que surpreendeu os farrapos na madrugada.

Um vulto colossal, os olhos faiscantes

O legado da mortandade ficou inoculado na memória da população. Maria das Neves Alvarez Amaro, 59 anos, que mora na área de Porongos, lembra que era proibida de brincar às margens de um arroio, quando criança. O pai, Waldemar, dizia que era a sepultura dos lanceiros.

Na década de 1960, tropeiros de gado evitavam acampar em Porongos, apesar da sombra e da aguada fartas, com receio de assombros. A própria Maria das Neves diz que era visitada, no quarto, pelo vulto de uma negra idosa:

– Ela não falava nada e baixava a cabeça.

Os relatos se sucedem, com pequenas variações. Maria das Neves não enxergou, mas colheu narrações dos que viram mulheres e crianças negras sem cabeça. O que mais causou espanto foi a visão de um negro gigante, olhos em brasa. Não era ameaçador, mas surgiu quando um operário realizava um conserto no sítio histórico. Cabelos em pé, a aterrada vítima só conseguiu balbuciar antes de paralisar o serviço:

– Ele não quer que se mexa nesse lugar…

Em novembro de 2004, foi erguido o Memorial Lanceiros Negros em Porongos. Além da homenagem aos que tombaram, é um clamor por justiça, para que os mortos possam descansar em paz.

Chica Papagaia levou a culpa

Mulheres faceiras e valentes marchavam com as tropas na guerra civil, acompanhando tanto farrapos quanto imperiais, com a missão de cozinhar, curar ferimentos, rezar pelos moribundos e consolar os soldados nos pelegos. Para justificar o massacre no Cerro dos Porongos, parte da culpa para isentar David Canabarro recaiu sobre a mais célebre das vivandeiras: Maria Francisca Ferreira Duarte, a Chica Papagaia. Oficialmente, ela trabalhava como auxiliar de enfermagem, ajudando o marido, o farmacêutico João Duarte. No momento do ataque imperial, estava na tenda entretendo o general, o que teria amolecido a vigilância do comandante.

O apelido surgiu porque o marido traído não se desgrudava de um papagaio, que teria aprendido a xingar os imperiais. No livro Os Amores de Canabarro, Otelo Rosa descreve que Chica Papagaia exibia “formas bem pronunciadas, fortes e rijas, mas proporcionadas”, ao paladar da época. Depois do infortúnio, Canabarro teria despedido os serviços do farmacêutico, com recomendações à dona Maria Francisca. Ela morreu 50 anos depois, em Taquari, pobre e esquecida.

Baú farrapo

O Cerro dos Porongos conserva a mesma geografia do passado. A grama é rala, entremeada por pedrinhas ígneas e um cáctus miúdo.

No Memorial aos Lanceiros Negros, foi gravado um poema do africano Birago Diop (1906-1989) sobre a ancestralidade. Uma das estrofes: “Ouça no vento o soluço dos arbustos; / É o sopro dos antepassados… / Nossos mortos não partiram…”

A professora Rosa Claudete Vaz Duarte, 58 anos, de Pinheiro Machado, conta que moradores de Cerro dos Porongos acharam vestígios de armas da época farroupilha. As descobertas ocorreram principalmente quando revolviam a terra.

Habitantes locais encontraram um antídoto para evitar assombrações, mesmo que não as temam. O melhor remédio é uma benzedura com tição, um galhinho de arruda e outro de alecrim.

Conhecida como a Capital Nacional da Ovelha, Pinheiro Machado deseja impulsionar o turismo. Quer valorizar o Cerro dos Porongos, a culinária de carne de cordeiro e o artesanato de lã crua.
Reprodução – gauchazh.clicrbs.com.br – 16/09/2012 –