Naquele tempo onde os campos ainda eram abertos, não havia entre eles nem divisas nem cercas, havia um estancieiro muito rico, cheio das pratarias, porém muito avarento e mau. Ele era dono de um escravo ainda pequeno, a quem todos chamavam de Negrinho. A este não deram padrinhos nem nome, por isso o Negrinho se dizia afilhado da Virgem Nossa Senhora.


Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o parelheiro baio, depois preparava o chimarrão e a tarde sofria maus tratos do filho do patrão. Um dia, como forma de punir o Negrinho, o estancieiro o mandou de madrugada ao pastoreio, ordenando a pastorear por 30 dias uma tropilha de 30 tordilhos negros. Com medo de passar a noite no pasto sozinho, o menino pensou em Nossa Senhora, sua madrinha, e acalmou-se até cair no sono.

No meio da noite vieram os guaraxains ladrões e cortaram a corda que prendia o baio. O cavalo montou a galope, levando consigo toda a tropilha. Ao perceber que havia perdido todos os cavalos, o menino voltou à fazenda, foi até o oratório da casa e rezou para Nossa Senhora o ajudar. Pegou um toco de vela aceso e saiu de volta ao campo. Por coxilhas e canhadas, por todo lugar passava, a vela benta ia pingando cera no chão, e de cada pingo nascia uma nova luz. Os cavalos, então, começaram a relinchar. Ao encontrá-los, o Negrinho montou no baio e tocou por diante a tropilha de volta até a coxilha.

Ao clarear do dia o filho do estancieiro, ao encontrar o Negrinho dormindo na coxilha, espantou os cavalos fazendo com que fugissem novamente. Ao voltar à fazenda de mãos vazias, o estancieiro amarrou o Negrinho no palanque, e bateu tanto nele que o menino clamou à Virgem Maria por misericórdia! Até que de tanto sofrer morreu, ou pareceu morrer… O patrão então mandou colocar o corpo do Negrinho, banhado de sangue, em cima de um formigueiro para que as formigas o comessem.

Três dias depois, o senhor foi ao formigueiro para ver o que restava do corpo do menino. Qual foi seu espanto ao chegar perto e ver o Negrinho de pé, feliz e contente, em companhia de sua madrinha Virgem Maria e da tropilha perdida. Desde então, o Negrinho do Pastoreio é visto passeando com seus cavalos pelas coxilhas gaúchas. Daí por diante, quando qualquer cristão perde algo, reza ao Negrinho para que ache. E ele acha, mas só entrega a quem acende uma vela, cuja luz ele leva de presente à Virgem Nossa Senhora.