Festas Juninas no Rio Grande do Sul – Opiniões de Antonio Augusto Fagundes.
Curso de Tradicionalismo Gaúcho e Paixão Cortes em seu livro Folk

No Rio Grande do Sul as festas de junho estão ligadas ao solstício de inverno e são quatro, os santos do mês: Santo António (13), São João (24) e São Pedro e São Paulo (29).  Agradecimentos à Rogério Bastos.

Antonio Augusto Fagundes. Curso de Tradicionalismo Gaúcho

São festas importantes no calendário gaúcho e sua alegria não tira a seriedade das comemorações. O que se deve impedir — e o tradicionalismo está vencendo essa batalha — é a aparição de festas caipiras, que de caipiras não tem nada e visam colocar em ridículo um tipo humano brasileiro de cultura tão importante como o gaúcho, que já mereceu estudos sérios de homens como Mário de Andrade, Amadeu Amaral e Alceu Maynard Araújo. E se dizer que houve um tempo em que sociedades importantes e escolas sérias realizavam até os famigerados “casamentos na roça” em nosso Estado!

Segundo Antonio Augusto Fagundes, o Nico, as verdadeiras festas juninas do Rio Grande do Sul são as seguintes:

SANTO ANTÔNIO — Comemora-se a 13 de junho e, em certos municípios — como Mostardas e Tavares — manifestam-se os Ternos, hoje com menor intensidade. Embora esses cantores ambulantes lembrem os clássicos Ternos de Reis, os versos que cantam deixam bem claro o santo que evocam.

O normal é se fazer a festa de Santo António no dia que lhe é consagrado no calendário gregoriano, acendendo a fogueira no entardecer do dia 13 e, a partir daí, realizando as costumeiras provas de amor, jogo de prendas e salto sobre as brasas. Ultimamente, porém, está se verificando a tendência de se comemorar o dia de Santo Antônio no Dia dos Namorados (12 de junho), de inspiração comercial.

SÃO JOÃO — É a festa junina mais popular no Estado, com os gaúchos acendendo fogueiras em incontáveis municípios. Ocorre, porém, frequentemente um erro; as fogueiras são acesas na véspera de São João e não, como deveria ser, à tarde do dia 24 de junho.

A roupa adequada para essa ocasião é a gauchesca de festa. A comida é a galinha frita, assada ou com arroz, a batata-doce, o pinhão (preparado de várias maneiras), o amendoim, a pipoca, a cangica, os doces campeiros. Assar churrasco, ainda mais nas brasas da fogueira, seria um desrespeito ao santo. Bebe-se cachaça, quentão, jacuba ou capilé.

Conta-se que na antiga Judéia as primas Isabel e Maria estavam grávidas e moravam em casas distantes. A primeira que ganhasse bebé deveria anunciar a boa nova à outra, acendendo uma fogueira na frente da própria casa. Santa Isabel ganhou o filho, que será São João Batista, primeiro e cumpriu o prometido e até hoje os gaúchos acendem fogueiras, anunciando a vinda do santo.

Tem-se, porém, que “acordar” São João, porque à noite, é claro, ele dorme no céu. Por isso explodem foguetes e bombas. O secular costume de soltar balões está em desuso, no Estado.

São João também tem o seu Terno, com versos próprios. Em São Borja, no RS, realiza-se anualmente a festa de São Joãozinho Batista, quando, abaixo de cantos religiosos próprios, a imagem do santinho é retirada da casa da festeira e vai, em andor, até a Fonte de São João, distante várias quadras. À passagem da procissão o pátio das casas nas ruas percorridas vão se iluminando com a inflamação das fogueiras, enquanto a piazada vai soltando bombas e foguetes. Chegando à fonte, a imagem é passeada nos ombros de um devoto (sempre o mesmo) sem se molhar. Depois, todos voltam sem grandes formalidades à casa da festeira, onde se realiza um baile animado a gaita, violão e pandeiro, com comes e bebes. No outro dia, à tarde (aí, sim, Dia de São João) é realizada uma Mesa de Inocentes, farta e a vontade, para a gurizada do bairro.

Em muitos lugares, porém, como em São Borja e no interior de Sobradinho, ocorre o interessante fenômeno de “caminhar sobre as brasas”, de pés descalços. É verdadeiramente impressionante.

Na festa de São João em várias cidades, quando realizada pelo padre, acontecem os tradicionais “leilões” (galinha, leitão), “pescaria” etc… Quando a festa é espontânea, ocorrem jogos de prendas, baile e provas de amor e saúde, algumas destas à meia-noite em ponto.

SÃO PEDRO — O santo guardião das chaves, porteiro do céu, é o padroeiro do Rio Grande do Sul. A Estancia da Poesia Crioula, Academia Xucra do gauchismo, realiza todos os dias 29 de junho a sua festa máxima. Hoje quase não se acendem as fogueiras de São Pedro e, raramente, aparece o Terno desse santo.


Por Paixão Cortes em seu livro Folk, Festo e Tradições Gaúchas.
(Cadernos Gaúchos)

Comemoradas no Brasil, desde o Século XVI, trazida pelos Portugueses as festas juninas sofreram adaptações com costumes agregados aos antigos. Mesclando ritos pagãos e cristãos tem um importante papel no calendário folclórico, apresentando características de diversas de acordo com cada região do pais.

Em todos os rincões do Estado, principalmente no ambiente simples do nosso homem do campo as festas de maior significado na comunidade continuam sendo comemorações dos Santos Padroeiros. Hoje em quase todo o Brasil as festividades juninas tomaram caráter festivo-social, desligadas do seu sentido de religiosidade e passaram a ser um acontecimento em que o ridículo e a fantasia representam o ponto alto das modas ou novidades citadinas.

O que vem ocorrendo no Rio Grande do Sul há algum tempo, é que estão sendo misturadas duas culturas regionais brasileiras distintas — a caipira e agaúcha — nas comemorações das festas juninas. Muitos imitando o caipira que é pior, muito mal, sem conhecimento de sua cultura. Sabe-se que o caipira é um tipo humano representativo de uma região brasileira, assim como o são o vaqueiro, o jangadeiro e o próprio gaúcho merecendo, portanto, como nosso irmão, o nosso respeito. A vida simples e rústica, a falta de instrução, a deficiência de higiene fatores hereditários e uma série de outros motivos fizeram do caipira um tipo humano característico do interior paulista, principalmente.

Não podemos esquecer, porém, que possui também belíssimas tradições regionais que chegaram até nossos dias cultuadas pelas gerações.
Se muitos deturpam a figura do caipira, tornando-a extremamente caricata e mesmo cômica, transformando-a em verdadeiro palhaço, é pela falta de conhecimento do tipo verdadeiro. A imaginação jocosa não viu as qualidades e virtudes que aquele possui, ante as condições desfavoráveis do seu vestir.

Quanto ao tipo humano, o caipira é bem distinto do gaúcho, não só na maneira de falar, com corruptelas originais, como no vestir, pois não usa bombacha, bota, espora, guaiaca, tirador, camisa lisa, chapéu de feltro, barbicacho, pala, boleadeira, etc. Não vemos razão para confusões. As festas juninas no Rio Grande do Sul, no seu sentido verdadeiramente folclórico, eram distintas das comemorações caipiras e assim deveriam continuar.

Não devemos ser contra a festa caipira, dentro dos princípios tradicionais e corretos. Devemos ser, sim, contrários à mistura de costumes de caipiras e gaúchos em festas juninas. E mais. Contra a pretensa substituição pura e simples da festa caipira por festas gauchescas. Se nós, gaúchos, temos uma tradição e a cultuamos, também os caipiras possuem a sua e a mesma deve ser respeitada, pela sobrevivência do folclore nacional, em suas puras manifestações.

No sentido de divulgar as verdadeiras tradições gaúchas, referentes aos santos do mês de junho, o IGTF realizou, em 1980 e 1982 dois grandes acontecimentos populares que foram: a “1ª e a 2ª Festa Junina de Porto Alegre”, no Parque Marinha do Brasil.

Milhares de pessoas assistiram aos festejos e tornaram parte na montagem das diferentes fogueiras para cada santo — Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo —, além de presenciar o “Levantamento do Mastro”, pelo ‘Capitão”; as atuações do “Tenente da Fogueira” e “Alferes da Bandeira”, afora, naturalmente, a degustação de pratos típicos da gastronomia gaúcha e participação nos jogos, sortes e danças do folclore rio-grandense.

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